Escrito por Glauco Tavares, dia 20 de Setembro de 2009Este é mais um dos artigos que resultam das longas conversas com meu orientador espiritual, Dom Alexandre de Andrade, O.S.B..
Estávamos falando um dia destes sobre a palavra paz. Na língua portuguesa esta palavra existe com o seguinte significado:
Paz (substantivo feminino); 1) Quietação de ânimo. 2) Sossego, tranquilidade. 3) Ausência de guerra, de dissensões. 4) Boa harmonia. 5) Concórdia, reconciliação. 6) Paciência, pachorra.
Porém há uma passagem do Evangelho de João (14:27) onde Jesus diz: “Deixo-vos a minha paz. E a paz que eu dou não é como aquela que o mundo dá. Por isso, não se aflijam nem tenham receio”. Neste contexto Jesus está se referindo a dois tipos de Paz, uma paz que ele dá e outra que o mundo oferece.
Traçando um paralelo com o Sânscrito, observamos que nele existem duas palavras que transmitem o mesmo significado macro: Shanti e Shanta. Ambos significam Paz já que provém do radical sham, que significa “terminar”, “cessar”, “apaziguar”. Porém Shanta tem um sentido mais profundo, segundo João Gonçalves (Doutor em Linguística pela USP e professor de sânscrito):
“Shanta é uma palavra do sânscrito que transmite ao mesmo tempo um conceito e uma sensação. No plano conceitual, o termo Shanta é empregado para nomear um estado de espírito repleto de bem estar, caracterizado por uma quietude interna. Quando sentimos um sossego na alma, dizemos em sânscrito que estamos Shanta. E por ser algo tão bom, não basta definir a palavra – Shanta é para desejar e para sentir. E depois de conquistado, o estado de Shanta deve ser preservado. É uma comunhão consigo mesmo. Por isso, Shanta não é um sentimento propriamente dito, mas também não é falta de sentimento. O equilíbrio das energias que pulsam em nosso ser, a harmonia entre o que coração e a mente desejam, o ato de entrega desinteressado perante a vida, tudo isso é Shanta.
E não se deve imaginar que os problemas deixam de existir. Os conflitos continuam fazendo parte da existência, mas torna-se possível estar em meio a eles sem que penetrem nossa alma. Porque em estado de Shanta, a mente está apaziguada. A descoberta de que não existe melhor objeto a desejar do que nossa própria alma é o caminho que dirige para Shanta. Na seqüência dessa descoberta, percebe-se que tudo o que interessa de verdade está a nosso alcance. É a partir desse momento, em que nada nos falta, que estamos realmente presentes no mundo, com a plenitude de nosso ser. Por isso, Shanta não é ausência, nem omissão. É o equilíbrio que gera a capacidade de lidar com a diversidade da vida, em todas as suas manifestações. É uma conquista que deve ser trabalhada. É a serenidade conquistada através da meditação e do conhecimento das partes mais profundas de nossa alma.”
Unindo este significado à passagem do Evangelho de João citada acima, imagino eu que Jesus estava se referindo portanto aos significados das palavras Shanta e Shanti. Se observamos novamente a passagem podemos entender que: “Deixo-vos a minha paz (SHANTA). E a paz que eu dou não é como aquela que o mundo dá (SHANTI). Por isso, não se aflijam nem tenham receio”.
Pois é fácil para nós estarmos em paz quando tudo ao nosso redor nos possibilita este estado, ou seja, quando estamos na paz que o mundo oferece (shanti). Agora, estarmos em paz quando tudo ao nosso redor nos consome para um estado de agitação, perturbação, nos distancia de nossa essência, este é o nosso verdadeiro desafio. Nos mantermos na Paz que Jesus nos oferece (shanta) para que possamos oferecer a paz ao mundo (shanti).
Que tenhamos, sempre, as duas.
Pax
Glauco Tavares